Dois sucos e a conta com TEREZINHA SARAIVA

(Revista O Globo, 4/12/2016)

Aos 91 anos, a professora Terezinha Saraiva coordena o projeto Apostando no Futuro, idealizado, supervisionado e financiado pela Fundação Cesgranrio, de Carlos Alberto Serpa. O projeto surgiu há 12 anos, e atende diretamente mais de 500 pessoas, de 2 a 83 anos, e indiretamente cerca de duas mil, de quatro comunidades de baixa renda do entorno da Fundação, no Rio Comprido: Paula Ramos, Vila Santa Alexandrina, Parque André Rebouças e Escadaria. Tudo começou em 2003, quando Serpa, que já ajudava algumas ONGs, decidiu criar o próprio projeto, que foi concebido pelo filho de Terezinha, Cláudio Saraiva. Ele o coordenou até sua morte, em 2010. A partir daí, ela assumiu. “Levar adiante o sonho de meu filho me move”, diz ela, que criou na Fundação Roquette Pinto em 1992 o primeiro programa de TV interativo de aperfeiçoamento de professores do ensino fundamental, “Um salto para o futuro”. As atividades do projeto são desenvolvidas pelas ONGs Omep, São Domingos Sávio e Só Lazer, e quase todas acontecem no Clube Ginástico Desportivo, alugado pela Fundação. Entre os parceiros, “Folha Dirigida”, CAp-Uerj, Dentistas do Bem e Associação Odontológica Brasileira.

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REVISTA O GLOBO: O que tem de diferente neste projeto?

TEREZINHA SARAIVA: O projeto responde às demandas das quatro comunidades. Antes de sua implantação, foi feito um diagnóstico para conhecer as principais reivindicações dos moradores. Eles disseram: regularização da documentação civil; atendimento a crianças até 5 anos; qualificação profissional de jovens; atividades de cultura, esporte e lazer para todas as idades; ações preventivas a crianças e jovens de 6 a 14 anos; e disseminação de informações. A metodologia do projeto é inovadora, e ele é periodicamente avaliado. Há melhora no desempenho escolar, redução do comportamento agressivo, maior preocupação com prevenção à saúde e preservação do meio ambiente, aumento da autoestima, maior respeito e solidariedade entre os moradores.

Cite algumas atividades do projeto.

Há brinquedoteca para crianças de 2 a 5 anos, e reforço escolar para quem tem de 6 a 14 anos. O Grupo de Mães e de Jovens Artesãs tem oficinas visando qualificação profissional e geração de renda. Há o jornal comunitário “O progresso”. Temos inclusão digital e atividades de cultura, lazer e esporte, como tênis, natação, futebol, ginástica para adultos e idosos, vôlei, judô. O projeto não é assistencialista e sim de desenvolvimento social. O objetivo é melhorar a qualidade de vida de toda a comunidade. Não adianta atender só a criança, porque senão ela sai daqui bem e encontra em casa um ambiente desestruturado.

E com relação ao mercado de trabalho, o que mais é feito?

Temos qualificação profissional. Este ano, por exemplo, 27 jovens realizam curso de hotelaria no Senac. E o projeto encaminha vários deles para estágio e trabalho, pelo projeto Jovens Aprendizes. Alguns estão contratados em locais como a empresa Lowndes e a própria Fundação. E a Cesgranrio dá bolsa de estudos a todos os participantes do projeto que chegam à universidade. Os moradores dizem: “O projeto foi a melhor coisa que aconteceu na comunidade”, “Ajudou muitas crianças que ficavam soltas na favela, ociosas”, “Ele promove o convívio social”, “Quando não tem aula aqui fico triste e o dia custa a passar”.

A senhora tem planos de parar de trabalhar?

Comecei em 1942, em escolas do subúrbio e da zona rural, ainda me formando no Instituto de Educação. Em 1946, virei professora e depois diretora de uma escola primária no Morro do Salgueiro. Em 1960, Carlos Lacerda foi lá em campanha. Na saída, me disse: “Professora, se é que vai acontecer alguma coisa para mim preciso muito da senhora.” Ele foi eleito governador e assumi vários cargos, até virar em 1965 a primeira mulher secretária de Educação e Cultura do país. E fui a primeira secretária de Educação e Cultura do município do Rio de Janeiro, após a fusão em 1975, a convite de Marcos Tamoyo. Fui ainda secretária executiva do Mobral, e conselheira federal e estadual de Educação. Adotei a educação como maneira de viver. No Brasil, ela avançou em termos quantitativos, mas não qualitativos. Este ano falei para o Serpa: “Estou cansada, acho que vou parar.” Ele respondeu: “Nem me fale nisso.” Então, não tenho planos de parar. Enquanto tiver forças e a cabeça funcionar bem, vou trabalhar pela educação e pela área social.

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Revista Ensaio lança “Conversa com autor” com a professora Rosa Torte

Por Clarissa Macedo

A equipe de Projetos Especiais, responsável pela edição da Revista Ensaio, iniciou, no dia 9 de março, um novo projeto, chamado “Conversa com o autor”, com a professora Rosa Torte, que atua no projeto social “Apostando no Futuro”, da Fundação Cesgranrio.

Rosa possui graduação em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Nova Iguaçu (1975) e mestrado em Educação pela Universidade Salgado de Oliveira (2000) e doutorado em Política Educativa pela Universidade do Minho, em Portugal (2015). Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Planejamento e Avaliação Educacional, atuando principalmente nos seguintes temas: avaliação, projetos sociais, integração escola-comunidade, educação de jovens e adultos, inclusão social, diversidade e editoração científica.

Na ocasião, a docente falou sobre sua tese de doutorado, que abordou a importância de programas de Alfabetização de Jovens e Adultos no Rio de Janeiro e seu significado para a inclusão social dessa população a partir de aspectos relevantes relacionados com os protagonistas deste processo, como alunos, professores, coordenadores, gestores e especialistas. Ela iniciou a palestra um poema de sua própria autoria sobre o valor desses programas, que foi muito apreciado pelo público:

– A inclusão social tão proposta ultimamente, / Só poderá ir em frente com a alfabetização. / Pessoas esclarecidas: Cidadania, autoestima / Cuidados, preservação, se farão muito presentes. O que está faltando, então? – dizia a última estrofe.

Rosa discorreu sobre sua tese, apontando conceitos, questões norteadoras, dados pesquisados – como a legislação e o histórico de programas de alfabetização de jovens e adultos no país –, a metodologia de pesquisa e os resultados encontrados em suas análises. Ela reforçou que a alfabetização, mais do que favorecer a educação, é um instrumento para o fortalecimento da cidadania e da inclusão dessas pessoas, bem como para melhoria da qualidade de vida. Segundo a docente, a intenção de sua pesquisa é levantar os problemas e propor soluções sobre ações com tal enfoque:

– Espera-se que a presente Tese possa gerar contribuições para equacionar as questões cruciais que emperram a Alfabetização de Jovens e Adultos – encerrou ela.

Segundo a professora Fátima Cunha, gestora da equipe de Projetos Especiais e editora da Revista Ensaio, a “Conversa com o autor” vai estimular o debate dos temas abordados na publicação:

– Uma tarde por mês, um autor será convidado para conversar com um grupo de leitores sobre seu artigo publicado na Ensaio. O encontro visa a contribuir para o debate, sanar dúvidas e discutir propostas, a partir da reflexão do artigo – disse a educadora.

A importância da base curricular

Por Terezinha Saraiva*

Volto, hoje, ao tema “Base Nacional Comum Curricular”, motivada pela leitura de sucessivas matérias jornalísticas, quase que diárias.

O Ministério da Educação ofereceu à comunidade acadêmica, em 15 de setembro de 2015, a versão preliminar do currículo nacional comum da Educação Básica, elaborado pela comissão instituída pelo MEC, composta por 116 especialistas, para consulta pública, estabelecendo prazo para receber sugestões.

O papel do Ministério foi de condutor do processo e não de autor do texto.

É importante relembrar que, ao apresentar a versão preliminar, o então Ministro da Educação Renato Janine Ribeiro admitiu que havia necessidade de alteração no texto, que o documento elaborado pela comissão precisava ser melhorado.

Depois de assumir a pasta, o Ministro Aloizio Mercadante concordou com a opinião do Ministro anterior, em audiência pública na Câmara.

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Todos podem aprender

Terezinha Saraiva*

Sempre discordei dos que depositam nos ombros estreitos das crianças e adolescentes oriundos das comunidades de baixa renda, que frequentam as escolas públicas brasileiras, a razão para o mau desempenho escolar. Segundo eles, os ensinos fundamental e médio perderam a qualidade de outrora, a partir do momento em que as escolas públicas abriram suas portas para educar aquele segmento da população do qual, até o início da década de 60 do século passado, poucos tinham acesso à educação.

A escola pública, quer do ensino primário, quer do ginasial e colegial era, até então, excludente. Os alunos que a frequentavam pertenciam à classe média, média alta e rica. Vinham de um meio favorecido, com ambiência cultural, filhos de pais com boa escolaridade. Àquela época já existiam escolas particulares tradicionais, sobretudo do ensino ginasial e colegial, famosas pelo ensino oferecido. Entretanto, a matrícula na rede pública brasileira era muito maior do que na rede privada. Escolas públicas e particulares existentes igualavam-se no ensino de qualidade oferecido e no desempenho escolar dos alunos.

Minha visão é de que o fator que mais pesa no mau desempenho dos alunos da maioria das escolas públicas e de muitas escolas particulares não é a origem dos alunos. Outros fatores são responsáveis pela queda da qualidade dos ensinos fundamental e médio. Já os enumerei tantas vezes nos artigos que escrevi, nas palestras que fiz que não os vou repetir aqui.

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