Questão de tempo

Fonte: O Globo

(Artigo de Arnaldo Niskier)

Quando se debate o que deve ser lecionado aos nossos alunos, a partir de uma nova concepção de currículo, a variedade é imensa. Estamos nos aproximando de 2018, quando as 200 mil escolas brasileiras estarão diante do desafio de implantação das novas bases curriculares. Nada menos que 45 milhões de estudantes serão orientados por dois milhões de professores, espera-se, com novos e revolucionários conceitos.

Na discussão em torno do assunto, a imaginação é o limite. Enquanto nos preocupamos com a iniciação ao ensino de Matemática, outros educadores se debruçam sobre a adoção de jogos na ciência do raciocínio, o que não deixa de ser razoável. Dando um salto para chegar ao ensino médio, há os que defendem a ampliação dos horários de Sociologia e Filosofia, como matérias fundamentais. Continue Lendo “Questão de tempo”

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VI Colóquio – UM NOVO ENSINO MÉDIO por ARNALDO NISKIER

Baixe aqui o texto apresentado pelo Professor Arnaldo Niskier durante o VI Colóquio da Revista Ensaio, realizado na manhã desta terça (17), na Fundação Cesgranrio.

UM NOVO ENSINO MÉDIO – Baixe aqui

ABL homenageia os 80 anos de nascimento do Acadêmico Arnaldo Niskier com exposição e lançamento de sua fotobiografia

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A Academia Brasileira de Letras (ABL) homenageou os 80 anos de nascimento do Acadêmico, professor e escritor Arnaldo Niskier com exposição e lançamento de sua fotobiografia. Os dois eventos aconteceram no dia 30 de abril, quinta-feira.

A inauguração da exposição, intitulada “Arnaldo Niskier, 80 anos”, aconteceu na Galeria Manuel Bandeira, no Palácio Austregésilo de Athayde, na Avenida Presidente Wilson, 231, Castelo Rio de Janeiro. O público poderá visitar a mostra de segunda a sexta-feira, das 10 às 18 horas. O lançamento da fotobiografia foi às 19 horas, no Petit Trianon da ABL
A exposição está baseada no roteiro de autoria da jornalista Manoela Ferrari, responsável pela pesquisa das fotos e textos, que contam a vida do Acadêmico na fotobiografia. Tanto uma quanto outro foram divididos em módulos, desde a árvore genealógica do homenageado, passando pela memória da infância e vida escolar. Constam, também, os primeiros anos do jornalismo e vida esportiva, assim como episódios da vida do casal Ruth e Arnaldo Niskier e a construção da família até os dias de hoje. Outros módulos referem-se à revista Manchete e ao telejornalismo, à Academia Brasileira de Letras e à atuação do homenageado como Secretário de Estado. A mostra reproduz, ainda, suas conferências e viagens, sua produção literária, o CIEE e seu trabalho como curador da “Nuvem de Livros”, uma biblioteca on-line multiplataforma.

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CULTURA É MÃE DA EDUCAÇÃO

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Por Arnaldo Niskier
Doutor em Educação

Quando se discute o que vem primeiro, se cultura ou educação, logo é preciso esclarecer que vivemos um processo cultural, de que a educação faz parte.  Portanto, a tão decantada diversidade cultural do Brasil levou grandes escritores, como Gilberto Freyre, a proclamar a existência de vários brasis em regiões diferentes.  Não procede a tentativa de implantar um currículo único, na educação brasileira, pois seria perigosa centralização.  Mesmo que se deixasse o percentual de 30% para ser determinado pelos conselhos estaduais de educação (e até os municipais) ainda assim seria uma solução muito pouco democrática.

Não se pode ter saudade do livro único, característica da ditadura Vargas.  Não havia liberdade para os nossos autores, cabendo o indesejável controle ao então Ministério da Educação e Saúde.  Desagradar aos poderosos poderia até dar cadeia.

Hoje em dia, vive-se, nesse  processo, uma espécie de método de redução ao absurdo.  Em virtude da crise econômica, há um nítido movimento, na cultura brasileira, de desnacionalização das nossas editoras, o que coloca o seu comando em mãos predominantemente estrangeiras.  Somos tão ciosos na defesa  dos interesses nacionais, como se vê por exemplo na questão do petróleo, mas no que se  refere a esse problema há um silêncio suspeito.

São esses comandantes que irão proclamar a forma de ministrar ensinamentos aos nossos alunos?  Partindo do princípio de que o livro é um instrumento insubstituível de cultura, especialmente os didáticos, como aceitar passivamente esse modo de alienação?  Seria lamentável que os nossos intelectuais fossem buscar no exterior as  luzes necessárias para elaborar os manuais de língua portuguesa, história e até mesmo matemática, essenciais  à educação da juventude brasileira.

Pode-se afirmar que cultura é a alma do povo.  Os que fazem cultura, como os gregos, estão vivos no tempo e no espaço.  Neste tempo de  predomínio dos videogames, a cultura pode parecer enganosamente supérflua ou até  desnecessária, no planeta cronicamente consumido pela violência e pela fome.  Pode-se afirmar que a cultura é o melhor caminho para combater a violência.  Só ela é capaz de conciliar os espíritos através de um trabalho de aplainamento das divergências sociais, políticas, étnicas e religiosas.  É possível até afirmar que por sua índole essencialmente tolerante – por ajudar o ser humano a conhecer melhor o outro e a respeitá-lo – a  cultura é o melhor instrumento que temos  à mão para o desarmamento de corpos e espíritos, para se viver em ambiente saudável de paz.

A cultura, primeiro estágio da educação, ensina brincando.  Na frase sutil de Selma Lagerlof, sueca que venceu o  Prêmio Nobel de Literatura, “a cultura é o que subsiste quando esquecemos de tudo o que tínhamos aprendido.”  Ou pode-se referir ao poeta T.S. Eliot:  “A cultura pode ser descrita simplesmente como aquilo que faz valer a pena viver.”  Seu objetivo é mais a bondade do que a  beleza, e aí estaremos dando razão ao romancista Somerset Maugham.

Para compreender adequadamente os laços que ligam cultura e educação podemos tomar emprestadas as palavras do pedagogo britânico  Denys Thompson:

“Se quisermos ter uma cultura  popular genuína com suas raízes na sociedade, os meios de comunicação de massa devem continuar a partir de onde a educação, na melhor das hipóteses, termina.  Nenhum grande melhoramento pode ser esperado até que uma educação mais intensa e de melhor qualidade atinja o seu impacto e os meios de comunicação fiquem ao alcance de um público arguto.”

É justamente aí que entra a cultura, como arma de sobrevivência.