XII Conversa com o autor

Ontem, dia 13 de setembro, a revista Ensaio, depois de três anos de pandemia, realizou mais um evento: a Conversa com o Autor. Desta feita, contamos com as professoras Menga Lüdke da PUC-RJ e Ana Ivenicki da UFRJ para dialogar com o público sobre o artigo publicado na Ensaio 116, Teoria e prática na formação de professores: Brasil, Escócia e Inglaterra, disponível no Scielo:

https://www.scielo.br/j/ensaio/a/kzRxZ6gdTBGSbrxJbZn8vrs/?lang=pt

O diálogo da professoras eméritas com o público foi muito proveitoso, temas como currículo de pedagogia, formação de professores no Brasil, Escócia, Inglaterra, pesquisa e formação profissional foram discutidos com professores, alunos e pesquisadores da área da Educação na sala anexa ao Teatro Cesgranrio no campus da Fundação no Rio Comprido.

O evento foi realizado pela revista Ensaio, com o patrocínio da Fundação Cesgranrio e com o apoio da FAPERJ.

Dilemas e Perspectivas Internacionais na Formação de Professores

Ana Ivenicki, PhD em Educação pela University of Glasgow, Professora Emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro/UFRJ, Pesquisadora 1A do CNPq, Editora Associada da Revista Ensaio/Fundação CESGRANRIO, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Logo do periódico Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação

A formação de professores tem sido frequentemente tensionada por ideias que apontam a importância ora da teoria, ora da prática em sala de aula. Embora de relevância, tais discussões podem se beneficiar de estudos que analisem como o currículo de formação docente tem lidado com tais tensões, seja no Brasil ou no exterior, de modo a buscar perspectivas inovadoras que possam acompanhar os futuros professores no trajeto teórico-prático de seu preparo.

Leia mais em https://humanas.blog.scielo.org/blog/2022/08/12/dilemas-e-perspectivas-internacionais-na-formacao-de-professores/#.YyCmjXbMKUl

O papel da Autoestima e Motivação na promoção aprendizagem on-line de mulheres reclusas

Rita Barros, Professora Coordenadora no Instituto Piaget, Portugal. Investigadora na Universidade do Porto, Centro de Investigação e Intervenção Educativas da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, Porto, Portugal, e no Instituto Piaget, Unidade de Investigação em Educação e Intervenção Comunitária, Vila Nova de Gaia, Portugal.

Angélica Monteiro, Investigadora Integrada na Universidade do Porto, Centro de Investigação e Intervenção Educativas da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, Porto, Portugal.

Carlinda Leite, Professora Catedrática na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação Universidade do Porto. Investigadora Sênior na Universidade do Porto, Centro de Investigação e Intervenção Educativas da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, Porto, Portugal.

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O artigo Autoestima e motivação para aprender on-line: o caso de mulheres reclusas, centrado na Educação de Adultos, enquadra-se no paradigma da Aprendizagem ao Longo da Vida e foca condicionantes que existem para a população prisional, em especial para as mulheres reclusas. Apesar de ser reconhecida a importância da Educação na reabilitação das populações reclusas (Manger et al., 2019), barreiras disposicionais, a autoestima e a motivação para aprender condicionam o envolvimento em atividades de formação.

O acesso a recursos digitais e à Internet e a implementação de projetos em e-learning têm revelado resultados encorajadores no que diz respeito às possibilidades para ultrapassar algumas barreiras (Schuller, 2009). Para conhecer os níveis de autoestima e a motivação para o envolvimento em atividades de aprendizagem, na sua relação com outras variáveis que lhe estão associadas (como a idade, tempo de reclusão e duração da pena), foi realizado um estudo descritivo-correlacional, com um grupo de 12 reclusas, em cumprimento de pena, numa população de 306 mulheres em privação de liberdade num Estabelecimento Prisional Feminino português.

Leia mais em https://humanas.blog.scielo.org/blog/2022/07/21/o-papel-da-autoestima-e-motivacao-na-promocao-aprendizagem-online-de-mulheres-reclusas/#.YyCcwnbMKUl

A avaliação educacional na produção científica vista por meio de análise de redes sociais

Alvaro Chrispino, Doutor em Educação pela UFRJ, Professor Titular Sênior do Programa de Pós-graduação em Ciência, Tecnologia e Educação do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (CEFET-RJ), Bolsista de Produtividade em Educação do CNPq, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Luiz Ney d’Escoffier, Tecnologista. Fundação Oswaldo Cruz. Doutorando do Programa de Pós-graduação em Ciência, Tecnologia e Educação do CEFET-RJ, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Camila Cristina Gomes Ferreira de Oliveira, Analista de Sistemas. Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Doutora em Ciência, Tecnologia e Educação pelo Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (CEFET-RJ), Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Lívia da Fraga Lima, Doutoranda em Engenharia de Produção e Sistemas, Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (CEFET-RJ), Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

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A avaliação é um tema amplo e complexo. Amplo porque está intimamente ligado aos diversos setores da sociedade contemporânea. Os cidadãos se relacionam com ele de formas distintas, desde a avaliação profissional a que estamos sujeitos até a avaliação de aprendizagem em todos os níveis. Estamos submetidos ao processo avaliativo ou somos expostos ao resultado das avaliações.

É complexo, porque há inúmeras variáveis e atores sociais envolvidos nos “fatos” que solicitam a avaliação; na elaboração, aplicação e análise da avaliação de diversos tipos e nas “consequências” dos resultados dos processos avaliativos.

Em educação, o tema é especialmente importante. Há momentos em que atuamos como sujeitos da avaliação – na fase de alfabetização (Avaliação Nacional de Alfabetização), no Ensino Fundamental (Prova Brasil ou Sistema de Avaliação da Educação Básica – Saeb), na conclusão do Ensino Médio e da Educação Superior (Exame Nacional do Ensino Médio – Enem e Exame Nacional de Desempenho de Estudantes – Enade) e, por fim, como alunos das pós-graduações (avaliações quadrienais da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Capes). Em outros momentos, atuamos como atores sociais e observadores da avaliação como mensuração de competências gerais: o ranking do Enem, o ranking do Enade, o ranking do Programme of International Student Assessment (Pisa), o ranking da Pós-Graduação etc.

Por conta do impacto e relevância da avaliação educacional, o artigo A avaliação educacional na produção científica vista por meio de análise de redes sociais, publicado na Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação, 2022, vol. 30 (115), analisou a produção científica brasileira relacionada ao tema por meio de busca na rede de SciELO. Para tal, utilizou as palavras-chave “avaliação educacional” ou “avaliação da Educação” para todos os índices (periódico, resumo, título, ano e autor), sem recortes temporais ou outras restrições. A amostra obtida alcançou 19 anos (1998-2017), 49 revistas, 174 artigos, 440 autores, 290 palavras-chave e 4.283 referências e foi submetida a software de Análise de Redes Sociais, buscando as centralidades de grau, de proximidade e intermediação.

Leia mais em https://humanas.blog.scielo.org/blog/2022/05/13/a-avaliacao-educacional-na-producao-cientifica-vista-por-meio-de-analise-de-redes-sociais/#.YyCbtnbMKUl

Pandemia, ensino remoto e universidades públicas no Brasil: exclusão digital e falta de diálogo

Lourdes Maria Rodrigues Cavalcanti, Assistente em Administração da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação do Centro de Educação da UFPB, João Pessoa, PB, Brasil.

Maria das Graças Gonçalves Vieira Guerra, Professora Associada III do Centro de Educação da Universidade Federal da Paraíba, Professora dos Programas de Pós-Graduação em Educação (PPGE) da UFPB, João Pessoa, PB, Brasil.

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No Brasil, além da crise sanitária causada pelo novo coronavírus, viu-se que falta ao nosso país um projeto de nação. É evidente que o planejamento governamental, em todas as esferas do poder público, deixa a desejar, quando existe. Em relação às universidades federais, objeto desta pesquisa, constatou-se que apesar da obrigatoriedade, o Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) não contempla a gestão de riscos, e não existe um plano de contingência capaz de lidar com calamidades, tanto nas universidades federais, como no MEC. Houve grande dificuldade no levantamento dos dados oficiais, devido à escassez de informações e à ausência de um protocolo para a gestão da crise causada pela pandemia, o que ocorreu somente em 04 de maio de 2021 (BRASIL, 2021), quando o MEC criou um Protocolo de Biossegurança para o retorno das atividades presenciais, nas universidades federais, que ainda não aconteceu, pois é necessária a aquisição de insumos diversos, e, de acordo com a Andifes (2021), as universidades federais sofreram um corte no orçamento de custeio, de mais de 18%, sendo que o acumulado, desde o ano de 2019, soma 25% do orçamento. Segundo a Andifes (2021), é preciso haver negociações para o retorno às atividades presenciais, precedida de uma discussão que viabilize o retorno de recursos, de, pelo menos, 20% do orçamento, sob pena de descontinuidade de muitas políticas públicas implementadas, direcionadas à ampliação da oferta de acesso e de inclusão ao Ensino Superior.

Leia mais em https://humanas.blog.scielo.org/blog/2022/02/04/pandemia-ensino-remoto-e-universidades-publicas-no-brasil-exclusao-digital-e-falta-de-dialogo/#.YyCMBHbMKUl

Analisando percepções de acadêmicos sobre o processo de internacionalização universitária

O artigo Internationalization of Higher Education Institutions: perceptions of scholars, publicado na Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação vol. 30 (114), tem como objetivo contribuir para as Instituições brasileiras de Ensino Superior (IES) dentro de uma perspectiva internacional. Relata, primeiro, as tendências mais recentes na literatura sobre os conceitos de internacionalização e Gestão Internacional que foram articulados para produzir o arcabouço teórico. A parte empírica da pesquisa contou com a realização de entrevistas com acadêmicos de três diferentes universidades públicas brasileiras, utilizando a metodologia de histórias orais (ALBERTI, 2013), para descobrir como tais estudiosos, com vasta experiência nas universidades, percebem o processo de internacionalização.

Os entrevistados mostraram percepções diferentes sobre o tema, mas apresentaram perspectivas para a melhoria desse processo, apontando, dentre outros fatores, a importância de uma gestão mais focada que possa buscar promover a igualdade/equidade entre as regiões brasileiras e, principalmente, o bem-estar da sociedade. Os autores defendem, a partir do estudo, que as instituições de ensino superior devem fortalecer a pesquisa e valorizar os acadêmicos brasileiros, principalmente aqueles com reconhecimento global, e não enfatizar apenas a mobilidade estudantil/acadêmica internacional a partir de uma perspectiva econômica/política, que parece prevalecer na literatura atual.

Tais observações não minimizam a relevância da mobilidade internacional. No entanto, o estudo indica que deve haver um equilíbrio desta perspectiva com os aspectos que envolvem culturas, diversidade e motivações sociais/culturais (KNIGHT & WIT, 2018). O artigo reforça que as instituições de ensino superior devem ser organizações multiculturais (Canen & Canen, 2005), ou seja, aquelas voltadas para a valorização da diversidade cultural, tanto nacional quanto internacionalmente, e indica perspectivas para futuros estudos que possam aprofundar processos de internacionalização das instituições de ensino superior em perspectivas inovadoras.

Leia mais

ALBERTI, V. Manual de história oral. 3 ᵃ Edição. Rio de Janeiro: FGV, 2013.

CANEN, A. G. and CANEN, A. Organizações multiculturais: logística na corporação globalizada. Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna, 2005.

KNIGHT, J. and DE WIT, H. Internationalization of higher education: past and future. International Higher Education [online]. 2018, no. 95, pp. 2-4 [viewed 7 February 2022]. https://doi.org/10.6017/ihe.2018.95.10715. Available from: https://ejournals.bc.edu/index.php/ihe/article/view/10715

Para ler o artigo, acesse

COSTA, R.P. and CANEN, A.G. Internationalization of Higher Education Institutions: perceptions of scholars. Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação [online]. 2022, vol. 30, no. 114, pp. 94-115 [viewed 7 February 2022]. https://doi.org/10.1590/S0104-403620210002903229. Available from: https://www.scielo.br/j/ensaio/a/8cm4MvrDXXpLXRYSd6FtFbm/?lang=en

Ensaio Avaliação e Políticas Públicas em Educação: https://revistas.cesgranrio.org.br/index.php/ensaio

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Ensaio Avaliação e Políticas Públic

Há cem anos nascia Paulo Freire

Cem anos do autor de Pedagogia do oprimido, se estivesse vivo. Mesmo não estando, sua obra está.

Pedagogia do Oprimido, uma de suas obras mais extraordinárias, aborda a luta pela desalienação, pelo trabalho livre, pela afirmação dos seres humanos como pessoas e não coisas. É uma obra para os revolucionários, como ele. Para todos aqueles que se comprometem com os oprimidos, para, com eles e ao lado deles, lutar para construir um mundo em que seja mais fácil viver, aprender, amar.

Para Freire a Educação liberta.

E por isso, Paulo Freire vive.

#FreireumEducadordoPovo

Educação e pandemia: que fazer agora e depois?

Candido Alberto Gomes, Centro de Investigação, Desenvolvimento e Inovação, Instituto de Estudos Superiores de Fafe, Fafe, Portugal

Educação e pandemia: que fazer agora e depois?” focaliza as desigualdades ampliadas da educação durante a COVID-19, segundo as teorias da reprodução. Por meio da resenha de pesquisas de 2020-21, aborda os principais desafios, como a diminuição do acesso, a perda de estudantes e o déficit de aprendizagem.

Frente a caminhos ainda desconhecidos, assinalam-se os principais problemas e conclui-se com a necessidade de uma cuidadosa preparação para a retomada das aulas presenciais, ao contrário do caráter improvisado e rápido da transição para a educação remota.

Em vez de planos burocráticos, é preciso trabalhar com a cooperação das forças vivas da comunidade em torno da escola, com atenção à saúde física e mental de todos os atores, identificando 1) o que falta recuperar em termos da formação de atitudes e aprendizagem, 2) trazer de volta estudantes afastados e aqueles que deixaram de ingressar. Ou seja, cumpre assegurar o acesso, a continuidade de estudos e o sucesso.

Pelas evidências, as tecnologias não conseguiram substituir a escola presencial, embora não devam ser abandonadas. Serão indispensáveis novos recursos para a educação, apesar dos cortes orçamentários promovidos. Seria ingênuo apenas tentar restabelecer o passado, sem considerar a crise em andamento.

A escola presencial se mostrou insubstituível, pelo clamor de crianças e jovens em favor da sua reabertura, mesmo que use tecnologias. Este é um dos itens de custos que levam à necessidade de aumento de recursos para a educação, apesar dos cortes executados.

Para ler o artigo, acesse

GOMES, C. A., et al. Education during and after the pandemics. Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação [online]. 2021, vol.29, no.112, pp.574-594 [viewed 08 September 2021]. https://doi.org/10.1590/S0104-40362021002903296. Available from: http://ref.scielo.org/94cd85

Links Externos

Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação – ENSAIO: www.scielo.br/ensaio

Ensaio 112

A Educação, a pandemia e a sociedade do cansaço

Érika Dias

Editora

https://www.scielo.br/j/ensaio/i/2021.v29n112/

Han, em seu livro “A Sociedade do Cansaço”, fez um retrato do mundo de antes da pandemia da Covid-19 demonstrando que vivemos numa época de velocidade e de esgotamento, na qual o sistema de poder vigente valoriza indivíduos inquietos, hiperativos, que se arrastam no cotidiano produtivo, quase sempre bem-sucedidos e que executam inúmeras e variadas tarefas. Estamos vivendo na sociedade do desempenho, constituída por uma nova subjetividade proveniente das transformações sócio-históricas ocorridas desde o final do século XX (HAN, 2017).

Foucault, ainda antes de Han, seguia na mesma linha de pensamento ao declarar que, não no final do século XX, mas desde meados do século XVIII, vivemos em um sistema de biopoder ou biopolítica, um sistema que busca otimizar um estado de vida na população, a fim de criar indivíduos economicamente ativos. Produzir, inovar, responder com criatividade às situações de trabalho, de estudo, de relacionamento são o que se espera de todos nós. Autossuperação, iniciativa, eficiência e flexibilidade explicam a sociedade do desempenho de Han (2017) e a biopolítica de Foucault (2012) .

Foucault (2012) e Han (2017) têm em comum a ideia de que, nessa sociedade do desempenho, na qual impera a biopolítica, impera também o cansaço e predomina a autoexploração. O indivíduo do século XXI quer sempre produzir mais e melhor porque é essa resposta de autossuperação, desempenho, inovação que se espera dele. E a pandemia, ao que parece, acelerou tudo isso. Hoje, neste novo normal, podemos entender o vírus como espelho da sociedade descrita por Han (2017) como sendo a “sociedade do cansaço”.

O coronavírus é um espelho que reflete e agrava as crises da nossa sociedade, os sintomas das doenças que sofríamos antes da pandemia – depressão, ansiedade, problemas de sono – se destacam com mais força, e um desses sintomas é o cansaço (BARROS et al. , 2020). Os contagiados padecem de extremo abatimento e esgotamento; para os curados, uma das sequelas é justamente a síndrome da fadiga, que vai além do simples cansaço. Os saudáveis em home office se cansam mais do que quando trabalham presencialmente, já que é um trabalho que carece de rituais e de estruturas temporárias fixas. É esgotante trabalhar sozinho, na frente da tela do computador, e a falta de contatos sociais é exaustiva. Tudo isso gera um impacto, porque todas as pandemias são geradoras de forte impacto social, econômico e político.

Desde março de 2020 estamos construindo respostas para o novo mundo que surgiu com a pandemia. Novo mundo, novo normal, novas vacinas, teletrabalho, ensino remoto, novas formas de nos relacionarmos, com distanciamento, máscaras, tudo isso foram adaptações que tivemos de fazer para manter o desempenho e os resultados que são esperados de nós, seja no campo familiar, no profissional, no educacional ou na vida em sociedade. Nessa nossa nova realidade, as famílias estão em casa – trabalhando e estudando –, tentando permanecer sãs física e mentalmente. Algo bastante complexo, pois a ansiedade, a depressão e o estresse, que já eram sintomas da sociedade do século XXI, aumentaram durante a pandemia ( DIAS; PINTO, 2020 ).

A pandemia, num primeiro momento, desacelerou todos nós, parou o mundo, criando uma nova realidade. Todos os setores da sociedade sofreram impactos brutais, com restrições de circulação e de atividades, mudanças nos hábitos de higiene, ao mesmo tempo em que nos fez conviver com a possibilidade da infecção e com a fatalidade de milhões de pessoas. Num segundo momento, exigiu (e exige) reação, da população, dos sistemas de saúde, dos cientistas, dos governantes –, que nem sempre corresponderam com eficiência ou idoneidade, negando a ciência, contribuindo para o aumento do número de mortos –, das organizações de saúde e humanitárias e das instituições ligadas à Educação.

No que se refere à Educação, a crise causada pela Covid-19, em 2020, levou ao encerramento das aulas em escolas e em universidades, o que afetou mais de 90% dos estudantes do mundo, segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura ( UNESCO, 2020 ).

Conforme a Unesco, um ano após o início da pandemia em 2020, quase metade dos estudantes do mundo ainda se sentem afetados pelo fechamento parcial ou total das escolas, e mais de 100 milhões de crianças adicionais cairão abaixo do nível mínimo de proficiência em leitura como resultado dessa crise de saúde. Priorizar a recuperação da Educação é primordial para evitar uma catástrofe que afetará todo uma geração. Governos e instituições estão apoiando milhares de crianças em seus esforços para mitigar o impacto do fechamento de escolas, para lidar com as perdas de aprendizagem e adaptar os sistemas de Educação, especialmente em comunidades vulneráveis e desfavorecidas, porque reconhecem que existem desigualdades sociais ( UNESCO 2021 ).

Em texto recente, intitulado “Ainda tempos estranhos”, Nogueira afirma que “a Educação ocorre num contexto cultural e social, e não num vazio social abstrato” (2021, p. 312). E vai além, exorta para a necessidade de se atentar para as variáveis que intervêm nesse processo, indicando a desigualdade como um dos grandes problemas que a pandemia desvelou. O ensino remoto nos fez ver a diferença profunda de acesso dos alunos a recursos tecnológicos e educacionais. Ora, sabemos que há desigualdades no sistema de ensino público e privado, o que os governos, as instituições e a sociedade precisam fazer é responder ao problema, de forma que se possa superá-lo.

Um exemplo prático diz respeito à aprendizagem. Sabemos que o não cumprimento do ano letivo com todos os elementos que o constituem levou a um déficit de aprendizagem, em escolas públicas e particulares, e esse é sem dúvidas um dos grandes problemas que enfrentaremos, mas precisamos pensar para além disso. Num mundo pós-pandemia, será preciso elaborar projetos e leis para apoiar educadores, estudantes e famílias, priorizando os menos privilegiados ( BRASIL, 2020 ), implementando novamente, em pleno século XXI, os ideais do Iluminismo: a defesa do direito à Educação de qualidade para todas as pessoas.

Será preciso avançar para além do ensino remoto e do aumento da carga horária, será necessário criar condições para ajudar os alunos mais prejudicados. A escola precisará fazer um diagnóstico dos alunos como base para a retomada dos programas de ensino presencial ou híbrido. E, a partir disso, fazer intervenções que incluam, do lado pedagógico, o ensino estruturado nos conteúdos que não foram apreendidos, o uso estratégico dos deveres de casa e de programas de leitura e, para os alunos com mais dificuldade, programas intensivos de tutoria em pequenos grupos ( VIEIRA; SILVA, 2020 ). E os governos, por meio das políticas públicas, precisarão encaminhar esses projetos.

Refletindo sobre o que nos espera num mundo pós-pandemia, o número 112 da Ensaio reúne, mais uma vez, uma gama de artigos que discutem temas e objetos de estudo do campo educacional de grande relevância no contexto da realidade atual. Educação e pandemia, aprendizagem na Educação Básica, avaliação, políticas públicas, inclusão, são temas dos artigos ora publicados, objetivando ampliar o debate e as reflexões sobre assuntos atuais e que importam a todos.

Os artigos abordam questões que têm sua gênese nas inquietações motivadas pela pandemia, bem como questionam e refletem sobre programas de avaliação da graduação e da pós-graduação no Brasil, analisam as trajetórias de estudantes portugueses e brasileiros no Ensino Superior, discutem o equilíbrio entre trabalho e vida, a fim de entender o impacto do trabalho no bem-estar dos professores, procuram entender porque está ocorrendo o ingresso de pessoas cada vez mais jovens (entre 15 e 17 anos) na Educação de Adultos, ou ainda como se dá o processo de inclusão educacional de estudantes universitários com deficiência no Ensino Superior público em Honduras. Esses são alguns dos temas aqui publicados que demonstram a amplitude e a complexidade da área da Educação.

Abrimos o debate com o artigo dos professores e pesquisadores do Instituto dos Estudos Superiores de Fafe, em Portugal, Cândido Alberto Gomes, Susana Oliveira e Sá, Enrique Vázquez-Justo, Cristina Costa-Lobo, intitulado “Education during and after the pandemics” , no qual analisam o tratamento improvisado que a Educação recebeu durante a pandemia e os planejamentos necessários do que é preciso fazer no período pós-pandêmico. Os autores realçam as crises dentro da crise da saúde gerada pela Covid-19, tais como a pobreza e a violência, e entendem que é preciso apoiar famílias, estudantes e educadores, a fim de colmatar as consequências no pós-pandemia, concluindo que a preservação de recursos mínimos para a Educação é ponto de honra para os laços histórico-sociais e para o soerguimento das economias.

Do Mato Grosso do Sul, temos o artigo “A produção intelectual sobre o Qualis Periódicos na área de Educação: um diálogo com as pesquisas acadêmicas (2008-2018)”, no qual as autoras, Eliane Souza de Carvalho e Giselle Cristina Martins Real, tecem um panorama do Programa Qualis, analisando criticamente o programa e as mudanças que vêm ocorrendo nos últimos quadriênios, inclusive a recente proposta da comissão de acompanhamento do Plano Nacional de Pós-Graduação – PNPG 2011-2020 – de extinguir o Programa Qualis, apontando que tal ruptura irá incidir diretamente na gestão dos periódicos e nos programas de pós-graduação.

Dos pesquisadores da Fundação Cesgranrio, Kaizô Iwakami Beltrão, Mônica Mandarino, Ricardo Servare Megahós e Mônica Guerra Ferreira Pedrosa, temos o artigo “Effects of socioeconomic status on the use of written language: does it extend into Brazilian Higher Education?”. Nele, os autores, a partir dos pressupostos de Bourdieu e Passeron – que defendiam a tese de que a escola era o principal locus para legitimar e perpetuar as diferenças de classe – analisaram as notas de desempenho linguístico (português), a fim de demonstrar se os grupos socioeconômicos mais afluentes apresentaram maior proficiência no componente linguístico do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade).

Do Sul, temos o artigo “Avaliação do nível de satisfação discente de uma instituição de Ensino Superior: uma análise dos métodos da Teoria Clássica da Medida e da Teoria da Resposta ao Item”, no qual os pesquisadores Anna Cecilia Amaral Petrassi, Antonio Cezar Bornia e Dalton Francisco Andrade compararam as informações geradas pelo processo de autoavaliação de uma Instituição Federal de Educação Superior, no contexto do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior, com as mesmas informações tratadas a partir do uso da Teoria da Resposta ao Item (TRI) no lugar da Teoria Clássica da Medida, com o objetivo de demonstrar como o processo de avaliação pode se favorecer com a utilização da TRI.

A seguir, temos o artigo “Percursos de estudantes da Educação Superior com trajetórias de insucesso”, no qual professoras de instituições do Brasil e de Portugal – Lourdes Maria Bragagnolo Frison (in memorian ), Ana Margarida Veiga Simão, Paula da Costa Ferreira e Paula Paulino –, analisaram as trajetórias de insucesso e identificaram motivos, estratégias e expectativas de estudantes portugueses e brasileiros que elaboraram uma narrativa de autoformação. O estudo demonstra motivos do insucesso – desmotivação, ansiedade, contexto familiar, entre outros – e como os estudantes utilizam a motivação e as estratégias autorregulatórias para obterem sucesso.

Em seguida, temos o artigo “Work-life balance in higher education: a systematic review of the impact on the well-being of teachers” , uma contribuição de pesquisadores e de professores da Universidade Tecnológica do Paraná, Luciane Silva Franco, Claudia Tania Picinin, Luiz Alberto Pilatti e Antônio Carlos Franco. Nele, discutem o equilíbrio entre o trabalho e a vida no Ensino Superior e seu impacto no bem-estar dos professores. Os resultados da análise apontaram estratégias para melhorar o equilíbrio entre vida profissional e pessoal, como, por exemplo, implementar políticas voltadas para os professores, objetivando melhorar o clima organizacional, reduzir a desigualdade de gênero na graduação e na pós-graduação e organizar seminários sobre saúde, bem-estar, gestão do tempo e relacionamento.

Da Universidade do Estado da Bahia, temos o artigo “Juvenilização da EJA e as implicações no processo de escolarização”, no qual os autores, Alcides Alves de Souza Filho, Atenuza Pires Cassol e Antônio Amorim discutiram o fenômeno da juvenilização que ameaça a caracterização da Educação de Jovens e Adultos (EJA) com a presença de alunos cada vez mais jovens, excluídos do ensino regular, que acabam causando conflitos intergeracionais, afetando as relações na sala de aula, preocupando professores e gestores das escolas. Ao mesmo tempo que entenderam que precisavam incluir esses jovens no programa, a fim de participarem do processo de escolarização.

No campo dos estudos sobre inclusão, temos um artigo do professor Eddy Paz-Maldonado, da Universidad Nacional Autónoma de Honduras , intitulado “La inclusión educativa del estudiantado universitario en situación de discapacidad en Honduras”, no qual discute a realidade dos estudantes universitários com deficiência no Ensino Superior. O estudo demostra que o progresso foi lento e os desafios para estabelecer universidades mais inclusivas ainda são grandes. Ainda há uma forte convicção de que esses alunos são limitados no meio ambiente acadêmico, devido à sua condição e não devido às barreiras que ainda existem. Isso revela o desconhecimento e a pouca importância que o assunto ainda tem em todo o país.

Dos pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo, Bruna de Oliveira Julião, Carolina Toledo Piza e Claudia Berlim de Mello, temos o artigo “Escala de sondagem do desenvolvimento neuropsicomotor e de habilidades acadêmicas para o Ensino Fundamental I: percepção de professores”. O estudo analisou aspectos da aplicação e adequação da Sondagem do Desenvolvimento do Aluno (SDA), um instrumento para monitoramento contínuo de aspectos do desempenho acadêmico e do neurodesenvolvimento dos alunos dos primeiros anos do Ensino Fundamental, na perspectiva dos professores. As autoras apontam que aspectos do neurodesenvolvimento são pouco contemplados nas avaliações dos alunos, ao contrário das aquisições de habilidades relacionadas à leitura, à escrita e à matemática. As pesquisadoras entendem que, mais do que oferecer materiais e instrumentos, é preciso aprofundar a reflexão junto aos professores sobre como utilizá-los e conscientizá-los sobre a importância deles.

Fabiana A. Filipe, Dayane dos Santos Silva e Áurea de Carvalho Costa, da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, apresentam o artigo “Uma base comum na escola: análise do projeto educativo da Base Nacional Comum Curricular”, no qual analisaram o projeto educativo proposto como fundamento da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). No estudo, as autoras identificaram que a BNCC se fundamenta num projeto educativo de formação para a empregabilidade, com a centralidade das competências, a partir de um modelo de ensino direcionado, distanciando-se de um projeto educativo que visasse a uma formação crítica e emancipatória.

Em seguida, José Leudo Maia e Marcos Antônio Martins Lima apresentam o artigo intitulado “Modelagem de Equações estruturais e os testes de seleção – caso do vestibular da Universidade Estadual do Ceará – Uece”. O estudo analisou o uso da modelagem de equações estruturais para avaliar a qualidade do modelo empregado pela universidade no processo de seleção de seus vestibulandos. Os resultados demonstraram que o modelo é robusto e consistente, permitindo uma boa discriminação entre as notas dos vestibulandos, principalmente aqueles com o mesmo número de questões respondidas corretamente.

E, por último, na seção Página Aberta, temos o artigo “Avaliação do processo de formação do caráter em crianças na Educação Infantil”, de Bruna Rodrigues Cardoso Miranda e Maria Judith Sucupira da Costa Lins, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, no qual as autoras tratam da possibilidade de avaliação do início do processo de formação do caráter de crianças na Educação Infantil. A abordagem metodológica foi a pesquisa-ação, por meio de observação, intervenções, oficinas e questionários. Atividades especialmente criadas para essa pesquisa foram selecionadas e apresentadas às crianças. Resultados mostram que é possível avaliar a evolução da aprendizagem e a prática de virtudes nas crianças.

Em conformidade com o conceito de sociedade do desempenho defendido por Han (2017) , esse conjunto de trabalhos demonstra que a pesquisa não parou, nem a disseminação dos estudos cessou nesses “tempos ainda estranhos”. O processo até foi se acelerando. Nesse número, tão diverso, o leitor poderá constatar que o Ensino Superior, a Educação Infantil e o Ensino Fundamental constituíram-se como os fios condutores, entrelaçando realidades nacionais e internacionais, trazendo à vista questões que são relevantes para a Educação em todo o mundo.

A Ensaio deseja uma boa leitura a todos e renova o compromisso de continuar a promover a reflexão, o debate e a difusão de estudos que contribuam para o avanço do conhecimento na área da Educação.

Referências

Érika Dias: Doutora em História Moderna pela Universidade Nova de Lisboa. Editora da revista Ensaio: avaliação e políticas públicas em Educação. Pesquisadora correspondente do Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa. Contato: erikadias@cesgranrio.org.br

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