Retratos da Escola

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Retratos da Escola comemora em 2017 o seu décimo ano como veículo de diálogo permanente entre os profissionais da educação, estudantes, pais, mães, entidades acadêmicas e sindicais, poderes públicos e demais interessados na temática educacional. O periódico tem sido amplamente disseminado entre esses diferentes atores. Desde o início a revista dedicou-se à publicação de dossiês temáticos com a intenção de aprofundar os temas relevantes e emergentes para a educação escolar no País, particularmente aqueles que dizem respeito às políticas públicas vinculadas à educação básica e aos profissionais da educação. Professores, gestores educacionais, pesquisadores, sindicalistas e autoridades convidados a manifestar análise sobre as temáticas apresentadas na Revista prestaram e prestam sua colaboração de forma prestimosa, gratuita e compromissada com o trabalho que desenvolvemos na iniciativa da Confederação Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE), responsável pela publicação deste periódico. Hoje, permanece a intenção de continuar a publicar dossiês, análises críticas, no sentido da construção de uma sociedade democrática, republicana, mais justa e menos desigual. Temos certeza que a revista tem servido para clarear o cenário educacional em toda sua complexidade, propiciando aos leitores uma visão cada vez mais engajada com as lutas dos movimentos da sociedade civil em prol da melhoria educacional. O Dossiê A Reforma do Ensino Médio em Questão é mais um tema que não poderíamos deixar de aprofundar.

Aos interessados, boa leitura!

Leda Scheibe EDITORA

http://retratosdaescola.emnuvens.com.br/rde

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Precisamos falar sobre Ensino a Distância

No dia 15 de agosto a revista Ensaio discutirá com os seus leitores, no campus da Fundação Cesgranrio, o artigo que sairá na edição 96 da revista, com o título “A representação social da Educação a distância sob o olhar dos brasileiros”.

Para acessar o artigo sobre Educação a Distância publicado pela Ensaio clique aqui:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-40362017005004103&lng=pt&nrm=iso&tlng=en 

O texto dos professores Gustavo Marchisotti e Fátima Bayma de Oliveira será debatido com o público. A Educação a Distância é um tema relevante que está na pauta do MEC. Conforme a matéria do Estado de São Paulo, o MEC tem procurado expandir o número de matrículas no Ensino Superior nesta modalidade. Confira a matéria do Estado de São Paulo abaixo:

Ensino superior a distância avança e valores caem

Portaria do MEC que facilita criação de polos já mobiliza mercado, que espera ampliação; mudanças serão mais sentidas nas cidades pequenas

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Oportunidade: ‘Sou o vovô da sala’, diz Antunes – Foto: Rafael Arbex / Estadão

Flávia Minard estava procurando emprego, ajudava a cuidar do pai com mal de Alzheimer, e ainda tinha as responsabilidades de ser mãe de uma criança pequena quando começou sua graduação em Gestão de Recursos Humanos, em 2014. Conciliar tudo isso é foi possível porque optou pelo ensino a distância, em um polo da Unopar perto de onde mora, em Sete Lagoas, cidade de 230 mil habitantes na região metropolitana de Belo Horizonte, Minas.

“Já fazia 13 anos que eu não estudava. A volta foi bem complicada, mas meu tutor ajudou muito”, conta Flávia, hoje com 34 anos. A dificuldade logo passou a ser encarada como oportunidade. “O EAD me fez ver que minha educação depende de mim, me fez explorar minhas capacidades”, explica. Com o diploma na mão, Flávia conseguiu um bom emprego e decidiu seguir na vida acadêmica. Hoje é aluna de um MBA, também na modalidade EAD na Unopar. “Nos horários vagos estou sempre estudando. Às vezes, sei que vou para algum lugar sem internet, então imprimo as atividades para levar comigo.”

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fonte: SENAC – SP

Segundo o Censo da Educação Superior, do Ministério da Educação, havia 189 graduações a distância em 2005. Dez anos depois, mostra o censo mais recente, esse total saltou para 1473 – alta de quase 680%.

 

A possibilidade de cursar uma graduação perto de casa deve chegar a mais pessoas como Flávia já neste ano, graças a uma portaria do MEC que permitirá às instituições de ensino privado com notas satisfatórias nas avaliações do governo abrirem mais polos de ensino a distância por ano sem necessidade de autorização prévia.

A abertura vai depender do Conceito Institucional, uma medida de qualidade do ministério que varia de 1 a 5, sendo as notas superiores a 3 consideradas satisfatórias. Para grupos com nota 3, a portaria permite abertura de até 50 polos por ano. No caso das notas 4, esse limite sobe para 150. Quem tem nota 5 pode abrir até 250 polos em um ano. A portaria também permite que as bibliotecas e laboratórios sejam apenas virtuais – anteriormente, cada polo precisava ter essa infraestrutura física.

A portaria foi publicada no fim do mês passado e já causou impactos. “Em 48 horas tivemos queda nas mensalidade, porque já vivíamos em um cenário de superoferta e a medida vai aumentar ainda mais. É uma regra básica de economia. Mas caiu também porque as instituições antigas no mercado já amortizaram seus investimentos e conseguem reduzir preços”, diz João Vianney, consultor em EAD da Hoper Educacional, que pesquisa a área.

“O MEC desburocratizou o processo de abertura de polos, privilegiando quem já demonstrou qualidade. A instituição vai levantar a demanda – e o tempo será apenas o necessário para montar a estrutura e abrir o polo”, afirma Sólon Caldas, diretor executivo da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), para quem a medida é extremamente positiva para o País, pois ajudará a aumentar o número de matrículas no ensino superior.

“O País precisa expandir. Temos a meta do Plano Nacional de Educação (PNE) para cumprir e só 18% de matrícula”, diz. O PNE é uma lei que estabelece 20 metas para a educação até 2024. A meta 12, especificamente, prevê que 33% dos jovens de 18 a 24 anos estejam matriculados no ensino superior; em 2015, a taxa era de 18,1%.

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fonte: UOL EDUCAÇÃO


Neste semestre

A expansão da oferta em EAD deve começar a ser sentida neste semestre. “Este ano, vamos abrir cerca de 100 polos. São locais para os quais já tínhamos processos encaminhados – estavam parados desde 2013. Devemos abrir mais 200 polos em 2018, sobretudo em Estados onde ainda não estamos, no Norte, Nordeste e Centro-Oeste, em cidades de 100 mil habitantes”, diz Carlos Fernando de Araujo Júnior, pró-reitor de EAD do grupo Cruzeiro do Sul. Além de crescer em total de polos, passará a ofertar cursos que ainda não tinha em seu cardápio EAD, como Nutrição, Arquitetura e Licenciatura em Educação Inclusiva.


Jovem e no interior

O perfil do aluno do EAD tem se aproximado cada vez mais com o perfil do presencial, e o contexto atual pode atrair ainda mais alunos jovens. “A redução na oferta de programas públicos de financiamento estudantil está trazendo uma demanda crescente pelos cursos EAD, já que são mais acessíveis”, afirma o vice-presidente acadêmico do grupo Kroton, Mário Ghio.

Ao facilitar a abertura de polos, a portaria do MEC traz um impacto sobretudo para cidades pequenas. A Kroton, por exemplo, diz ter um “plano robusto de expansão”, com novas praças já mapeadas. “O Brasil tem ainda muitas cidades de tamanho médio e pequeno, longe dos grandes centros urbanos, sem nenhuma oferta de ensino superior. Nestas cidades podemos iniciar com o portfólio clássico e complementar com os cursos de saúde e engenharias ao longo prazo”, diz Ghio.

Ainda assim, o EAD encontra demanda também entre o público mais velho, e nas grandes cidades. “Sou o vovô da sala”, diverte-se Joary Carlos Antunes, de 58 anos, que cursa Análise de Sistemas em EAD na Cruzeiro do Sul. Antunes trabalha no setor de vendas e já tinha começado duas faculdades, sem conseguir levar adiante. “Se estava em um cliente no fim da tarde do outro lado da cidade, perdia as aulas. O formato EAD veio para solucionar o problema.”


Autonomia

“Libertador” é o termo ainda que Flávio Murilo de Gouvêa, diretor acadêmico de EAD do grupo Estácio usa para se referir à metodologia, que tem base na internet. “O modelo promove emancipação. O aluno adquire autonomia para aprender coisas novas. Isso é importante porque ao fim do ciclo universitário ele terá a necessidade de continuar aprendendo”, afirma.

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fonte: PORTAL DO BIBLIOTECÁRIO


Engenharias e Saúde online vão ganhar estímulo

Ao permitir que as bibliotecas e laboratórios sejam virtuais, as áreas de Saúde e Engenharia também devem ter mais oferta em EAD. “Há simuladores muito bons, que permitem fazer experiências químicas ou físicas, por exemplo”, diz Gouvêa. Ele lembra que até na prática profissional as tecnologia virtuais já estão se sobressaindo, portanto não haveria motivo para exigir certas estruturas físicas. “Se for hoje a um hospital, o exame entra direto no sistema, não tem mais o papel, o físico.”

Mas cursos com perfil prático exigem cuidados especiais ao serem oferecidos a distância, como no caso da Educação Física. “Temos uma grande quantidade de aulas práticas, que acontecem nos laboratórios, ginásios e academias dos polos”, explica coordenador do curso da Unip, Bergson Peres. “Temos de acompanhar o mercado, responder à demanda que existe, mas da melhor forma possível.” Cursos na área de saúde em EAD ainda são muito recentes, mas o exemplo da Unip mostra que não faltam interessados. “Não esperava tanta procura. Em três semanas, as matrículas pularam de 300 para 3.500”, diz sobre o curso, lançado este ano.

FONTE: http://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,ensino-superior-a-distancia-avanca-e-valores-caem,70001884866

Programa de trabalho customizado em Educação Especial

Annie Gomes Redig, Professora adjunta da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Rosana Glat, Professora associada da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Esta pesquisa é resultado de uma tese de doutoramento que foi posteriormente publicada em livro “Inserção profissional de jovens e adultos com deficiência intelectual” (REDIG, 2016), de autoria de Annie Gomes Redig, orientado por Rosana Glat, no Programa de Pós-Graduação em Educação (PROPed, UERJ). Sendo assim, o estudo intitulado “Programa educacional especializado para capacitação e inclusão no trabalho de pessoas com deficiência intelectual”, publicado no volume 25, número 95, da Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação, apresenta a implantação e avaliação de um programa de inserção de pessoas com deficiência intelectual em atividades laborais. Este programa é denominado como trabalho customizado, no qual é possibilitada a adequação ou criação de postos de trabalho. Para Redig (2016, p. 81) esse conceito “parte do pressuposto de que o sujeito com deficiência é capaz de produzir e trazer lucro para a empresa, se tiver adaptações e/ou suportes adequados em seu local de trabalho”.

Esse é um conceito novo no Brasil, baseado em uma proposta utilizada nos EUA (customized job). Com isso, a contratação de pessoas com deficiência intelectual a partir desta perspectiva de customização laboral, possibilita uma alternativa viável para superação de barreiras encontradas no emprego, como preconceito, falta de escolarização, entre outros. Isso acontece porque há possibilidade de se adequar as demandas da empresa com o perfil do candidato ao emprego.

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Suporte para a organização na ordem alfabética de documentos nominais

Neste trabalho participaram quatro jovens com deficiência intelectual matriculados em cursos de Formação Inicial e Continuada de uma escola especial da Fundação de Apoio à Escola Técnica do Estado do Rio de Janeiro – FAETEC. A pesquisa foi desenvolvida na Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, por meio da pesquisa-ação, no qual a execução do treinamento destes jovens na Faculdade durou seis meses (setembro de 2012 a março de 2013). Porém, para a criação de postos de trabalho customizado foi preciso a realização de entrevistas semiestruturadas com os jovens e seus professores, com o objetivo de traçar o Perfil Pessoal Positivo de cada um. Luecking (2009) lembra sobre a importância de identificar em que as pessoas gostariam de trabalhar, com o objetivo de compreender em qual atividade laboral, elas podem ser inseridas. Além destes procedimentos, também foram realizadas entrevistas semiestruturadas com funcionários da Faculdade de Educação, com a finalidade de se entender a demanda de serviço do local.

Portanto, foi preciso criar funções laborais de acordo com a demanda da Faculdade e com as capacidades, habilidades e interesses dos participantes com deficiência intelectual. Dessa forma, dois jovens atuaram com atividades customizadas na área de serviços gerais e dois como auxiliares administrativos, sendo que um atuou no gabinete da Direção da Faculdade e o outro na organização de documentos por ordem alfabética na secretaria de Pós-Graduação. Para a realização destes serviços foram criados suportes, como adaptação do alfabeto, lista de atividades, etc.

Esta experiência impactou no crescimento pessoal e profissional dos jovens envolvidos. De acordo com Redig (2016, p. 209) “a proposta de customização das atividades laborais e a oferta de oportunidades de os alunos estagiarem na Faculdade de Educação permitiram a transposição das barreiras atitudinais impostas pela sociedade”.

Referências

LUECKING, R. The way to work: how to facilitate work experience for youth in transition. Baltimore: Paul H. Brookes, 2009.

REDIG, A. G. Inserção profissional de jovens e adultos com deficiência intelectual. Curitiba: Appris, 2016.

Para ler o artigo, acesse

REDIG, A. G.  and GLAT, R. Programa educacional especializado para capacitação e inclusão no trabalho de pessoas com deficiência intelectual. Ensaio: aval.pol.públ.Educ. [online]. 2017, vol.25, n.95, pp.330-355, ISSN 0104-4036 [viewed 03 July 2017], DOI: 10.1590/s0104-40362017002500869. Available from: http://ref.scielo.org/287g63

Link externo

Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação – ENSAIO: http://www.scielo.br/ensaio

Educação Inclusiva – UERJ: http://www.eduinclusivapesq-uerj.pro.br/index.php

 

FONTE: Programa de trabalho customizado em educação especial [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2017 [viewed 06 July 2017]. Available from: http://humanas.blog.scielo.org/blog/2017/07/06/programa-de-trabalho-customizado-em-educacao-especial/

O professor de sucesso em Curso Técnico em Meio Ambiente: a atuação docente em três instituições públicas de Educação Profissional/RJ

Relato de Pesquisa

Passos, Sara Rozinda Martins Moura Sá dos

    1 Introdução

Embora as sociedades contemporâneas reconheçam a importância dos professores para a oferta de uma educação de qualidade, existe um grave problema, que é a formação docente, uma questão que se arrasta há muito tempo e que não apresenta soluções adequadas. Outrossim é que, no Brasil, embora seja negada, a dualidade entre educação e trabalho existe, tanto que se concretizou pela oferta de escolas diferentes, uma para a formação das elites, àqueles que prosseguem seus estudos no nível superior, e outra para a formação profissional técnica, destinada ao proletariado, mais especificamente, aos pobres e desvalidos.

Nesse panorama que se descortina, é de suma importância sublinhar a dimensão da Educação Profissional (EP), hoje, tão relevante para o desenvolvimento socioeconômico do Brasil, além da importância da Educação Ambiental crítica, contextualizada e interdisciplinar para a formação do técnico em Meio Ambiente.

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A divulgação da publicação científica e o uso das mídias sociais*

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Desde o surgimento do computador e da Internet, inúmeras mudanças têm sido trazidas ao modo do Homem se comunicar; dentre as questões levantadas com advento da rede, está a constatação inquestionável da maneira pela qual as mídias digitais têm transformado, consideravelmente, a forma das pessoas enviarem e receberem informações. Desta forma, as práticas de editoração científica tradicionais acabam também transformadas, porque passam a ser geradas pelas ferramentas de publicação eletrônica e divulgadas pelas redes sociais.

É evidente as diversas vantagens que a Internet proporciona ao suporte impresso – neste caso, revistas acadêmicas impressas. Além da velocidade, há as ferramentas de busca e recuperação de informação, que permitem ao usuário/pesquisador encontrar resultados de pesquisas feitas em todo o mundo. Portanto, cada vez mais, há o engajamento por parte das instituições de ensino e pesquisa, além dos próprios pesquisadores, que visando à diminuição da distância entre público e ciência, ao seu posicionamento sobre questões do cotidiano e à conquista de visibilidade, adotarem as mídias sociais, como a página no Facebook, onde é possível trocar mensagens, participar de grupos de interesse comum de outros utilizadores, entre outras ferramentas; o perfil no Twitter, uma rede social e servidor para microblogging, que permite aos usuários enviar e receber atualizações pessoais de outros contatos, em textos de até 140 caracteres; e o Blog, um site cuja estrutura permite a atualização rápida a partir de acréscimos dos chamados artigos, ou posts. Desse modo, como forma de ampliar o seu público leitor, dentro da comunidade acadêmica e fora dela, as revistas científicas brasileiras lançam-se à prática e inserção de novos meios de comunicação, além de buscar valorizar a sua visibilidade.

Cada vez mais, a comunicação científica passa a ser feita de forma ágil, por meio das mídias sociais. Divulgar revistas, artigos, press release, posts por meio das redes sociais – Blogs, Facebook, Twitter –  passou a ser uma relevante ferramenta para medir o impacto da ciência e aumentar cada vez mais o alcance da informação científica para o público, seja ele acadêmico ou não.

 

*Jéssica de Sena

A importância da base curricular

Por Terezinha Saraiva*

Volto, hoje, ao tema “Base Nacional Comum Curricular”, motivada pela leitura de sucessivas matérias jornalísticas, quase que diárias.

O Ministério da Educação ofereceu à comunidade acadêmica, em 15 de setembro de 2015, a versão preliminar do currículo nacional comum da Educação Básica, elaborado pela comissão instituída pelo MEC, composta por 116 especialistas, para consulta pública, estabelecendo prazo para receber sugestões.

O papel do Ministério foi de condutor do processo e não de autor do texto.

É importante relembrar que, ao apresentar a versão preliminar, o então Ministro da Educação Renato Janine Ribeiro admitiu que havia necessidade de alteração no texto, que o documento elaborado pela comissão precisava ser melhorado.

Depois de assumir a pasta, o Ministro Aloizio Mercadante concordou com a opinião do Ministro anterior, em audiência pública na Câmara.

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Um currículo de base, no mínimo, incomum

Por Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista Político

Jules Ferry foi Primeiro Ministro da Terceira República francesa (1871/1940) por duas vezes e ministro da Instrução Pública. Exibia em seu prontuário as qualidades que ornavam muitos  dos homens de pensamento da época: republicano, maçom, positivista e anticlerical. Armado dessas distinções, laicizou a escola e nela enfiou o gorro frígio republicano, dispensou os jesuítas do seu ministério educacional, tornou o ensino primário gratuito e obrigatório e criou os liceus e colégios para “jeunes filles”. Um revolucionário, dir-se-ia, para aqueles tempos incertos, espremidos entre repúblicas, monarquias e impérios. Um centralizador que fez da escola questão de Estado, modelo que atravessou os dois últimos séculos envolto pela sedução do aparelhamento estatal,  aos tropeços da burocracia, sob o controle de uma “intelectocracia” ideologicamente correta, tão ao gosto dos franceses. Um cartesiano “avant la lettre”. Orgulhava-se Ferry do seu feito reformador: certa feita, relógio da algibeira à mão, informou, circunspecto,  aos circunstantes: “Neste exato momento, às 8 horas da manhã, em todas as escolas da França, os alunos estão lendo um texto de Chateaubriand”…

“…a Educação básica como um todo”

 Fui assaltado de estranho sentimento de perplexidade ao ler esse documento saído do forno das reformas que se aviam em Brasília. “Base Nacional Comum Curricular” é o título que lhe foi dado e traz, conforme dito na sua Introdução, a marca da autonomia desfrutada pelas esquipes que o produziram. Lê-se, aí, ainda, à título de ressalva, que a versão distribuída  “não representa a posição do Ministério”. Ainda bem, diríamos, cá com os nossos botões, tocados de dissimulada incredulidade. O primeiro parágrafo da “Apresentação”, não fosse redundante padeceria de irreprimível ambiguidade.  Soubemos graças a um truísmo gracioso que  “a base é a base”, lá está escrito com todas as letras. E finalmente:  A Base Nacional Comum “é a base para a renovação e o aprimoramento da educação básica como um todo” (grifo nosso). E conclui o texto à guisa de apresentação: “Leiam, critiquem, comentem, sugiram, proponham! Estamos construindo o futuro do Brasil”.  Donde se há de concluir que as equipes formularam a proposta que não é do MEC, mas poderá vir a sê-lo. Nisso precisamente surge a primeira indagação, sobre a “equipe”.

A ampla relação de coordenadores e diretores; presidente e vice-presidentes não deixa claro se os titulares são agentes públicos, funcionários do MEC e de secretarias estaduais, designados para compor a equipe. A formação da equipe leva, contudo, a concluir-se que se trata de um coletivo de amplitude nacional, constituído por regiões geográficas e algumas secretarias estaduais de Educação em estados estratégicos. Seria, como se mostra, de fato, uma proposta nascida nas entranhas da burocracia pública da Educação.

Não vem ao caso conhecer o viés político desses formuladores, importaria, entretanto, conhecer o seu perfil acadêmico. Melhor será fugir da partidarização ideológica que poderia por em suspeita essa espontânea contribuição da qual tanto espera o Ministério. A ideia de firmar-se uma “base” curricular, reconhecidas as circunstâncias geográficas que nos tornam um imenso território, com população numerosa e culturalmente diversificada, e desassistida historicamente, sujeita à ineficiência do aparato público-estatal, promíscuo e despreparado, não é a questão central a ser suscitada pela análise desse documento.

Jules Ferry fez sucesso no Brasil, em suas inúmeras reformas do ensino público, ao longo de todas as nossas Repúblicas, tão frágeis quanto passageiras, geradas ao embalo das monarquias dos Alcântaras. As reformas de 1968, inoculadas em nossas escolas e universidades pelos governos militares, prescreviam a figura do “Currículo Mínimo”, com a sua respectiva “grade curricular”, emolduradas pelas disciplinas “Educação Moral e Cívica”, “Organização Social e Política Brasileira e “Estudos de Problemas Brasileiras”.

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