Diversidade e excelência

Ao defender seus processos seletivos, universidades de elite dos EUA dizem, com base em evidências, que a diversidade beneficia todos

Na semana passada, Harvard, a mais prestigiosa universidade do mundo, anunciou que pela primeira vez em seus 380 anos de história receberá uma geração de calouros em que os estudantes brancos não serão maioria. Latinos, negros, asiáticos e representantes de outras minorias que ingressam agora no ano letivo da instituição representam 51% do total. A novidade coincidiu com a divulgação, dias antes, de uma reportagem no “New York Times” que revelava, com base num documento obtido pelo jornal, que o Departamento de Justiça americano estaria se preparando para processar universidades que adotassem critérios de ação afirmativa supostamente discriminatórios contra candidatos brancos. O governo desmentiu haver essa intenção, mas o fato foi suficiente para que Harvard e outras instituições saíssem em defesa de seus processos seletivos.

As universidades americanas não adotam cotas (a Suprema Corte daquele país julgou esse mecanismo inconstitucional), mas a declaração de raça pode ser levada em conta como um dos elementos do processo seletivo. Vale lembrar que lá, diferentemente do que ocorre no Brasil, a nota dos alunos em testes não é o único critério utilizado na hora de avaliar candidatos.

Ainda que políticas de ações afirmativas tenham também o objetivo de corrigir injustiças históricas, o principal argumento de Harvard para defender seu modelo foi que a diversidade era um valor essencial na formação de todos os seus alunos. “Para tornarem-se líderes em nossa sociedade diversa, estudantes precisam ter a habilidade de trabalhar com diferentes pessoas, de diferentes origens, experiências de vida e perspectivas”, afirmou a porta-voz da instituição, Rachael Dane, ao jornal “Boston Globe”. Outra instituição de excelência, o MIT (Instituto de Tecnologia de Massachussets) usou o mesmo argumento: “Um corpo estudantil diversificado é crucial para a missão educacional do MIT”, disse o também porta-voz Kimberly Allen.

Para críticos das ações afirmativas, essas declarações podem parecer apenas uma tentativa dessas instituições de elite de parecerem politicamente corretas. Porém, no mesmo dia em que o “New York Times” publicou sua reportagem, a Associação Americana de Pesquisas Educacionais divulgou uma nota destacando que “era importante reafirmar o que um conjunto esmagador de evidências científicas apontam sobre o valor da diversidade estudantil”. Segundo a associação, que é responsável pela publicação de sete revistas científicas com revisão entre pares (ou seja, artigos só são publicados após análise de especialistas no assunto), “a evidência empírica demonstra fortemente que políticas raciais neutras são insuficientes para promover a diversidade e que um corpo de estudantes diversificado leva a importantes benefícios educacionais, que permanecem mesmo depois que o aluno se forma e ingressa no mercado de trabalho.”

Para sustentar esses argumentos, a associação listou referências de dezenas de estudos acadêmicos que refutam a existência de efeitos colaterais das ações afirmativas (como a criação de um estigma entre seus beneficiados) e comprovam alguns de seus benefícios. Além de contribuir para uma sociedade mais tolerante e menos desigual, “um corpo estudantil diversificado promove melhorias em habilidades cognitivas dos alunos, como o pensamento crítico e a resolução de problemas, porque estudantes expostos a indivíduos com trajetórias distintas (e portanto com ideias diferentes) são mais desafiados em seus raciocínios, levando a um maior desenvolvimento cognitivo”.

Para quem quiser checar as referências citadas, no blog da coluna há um link para a nota da Aera, com todos os estudos listados.

FONTE: O Globo
https://oglobo.globo.com/sociedade/educacao/diversidade-excelencia-21671251

 

Anúncios

Autor: Revista Ensaio

A Revista "Ensaio", de nível internacional, constitui fonte de estudo e de pesquisa para todos os que se interessam pela área de avaliação e políticas públicas em educação. Publicação trimestral internacional, da FUNDAÇÃO CESGRANRIO, com tiragem de 1.500 exemplares, de distribuição gratuita, Ensaio congrega, em seus Conselhos Editorial e Consultivo, educadores internacionais de notório saber, mestres e doutores nas áreas por ela abordadas, para melhor atender à sua especificidade. Avaliada no qualis CAPES como sendo A1 na área de Educação, a Ensaio é uma revista que discute a realidade da educação brasileira, além disso, prima pela amplicação do debate pois abre espaço para que pesquisadores estrangeiros publiquem estudos sobre a realidade educacional de seus países. Trata-se de um veículo de divulgação de pesquisas, levantamentos, estudos, discussões e outros trabalhos críticos no campo da educação, concentrando-se nas questões da avaliação educacional e das políticas públicas em Educação, enfatizando as experiências e perspectivas brasileiras. Ensaio é pluralista do ponto de vista das ideias e das escolas de pensamento, interdisciplinar do ponto de vista das preocupações e metodologias empregadas por seus colaboradores. A revista promove intercâmbio com países da América Latina, México, Espanha, Portugal e a Comunidade de Língua Portuguesa, mantendo também a publicação de artigos em Espanhol e em Inglês. Ensaio tem sido contemplada com o apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da CAPES/MEC, cumprindo os requisitos necessários para o recebimento de auxílio editoração. Recebeu conceito internacional "A1" na avaliação dos Periódicos Científicos em Educação realizada, em 2013, pelo Quallis/CNPq e é indexada no SciELO - Scientific Eletronic Library Online e na CLASE - Citas Latinoamericanas em Ciencias Sociales y Humanidades (México, UNAM), BBE, DOAJ, Educ@, OEI, EDUBASE, LATINDEX, REDALYC, SIBE, SCOPUS. Buscando se modernizar e atender aos novos padrões das revistas acadêmicas de excelência, a partir de 2015 a revista Ensaio adotou o sistema de submissão de artigos totalmente online. Para acessar o sistema, os autores deverão se cadastrar no site da revista e escolher um login e senha. Com estes dados em mãos, poderão não só submeter os seus artigos, mas também acompanhar todo o processo de avaliação: http://revistas.cesgranrio.org.br/ A Ensaio também adotou o ahead of print. Esta modalidade agiliza a divulgação das pesquisas, aumentando o tempo de exposição dos artigos, beneficiando diretamente nossos leitores e autores. Os artigos publicados em AOP contam com DOI e ficam disponíveis tanto no nosso site, quanto no site do Scielo até serem destinados a um número específico. Informamos também que a Ensaio continua existindo nos dois formatos, o impresso e o online, e com a mesma periodicidade. A qualidade continua sendo importante para a Ensaio e as melhorias feitas visam contribuir para o objetivo maior do periódico: a ampliação do debate sobre a Educação em tempos difíceis.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s