Todos podem aprender

Terezinha Saraiva*

Sempre discordei dos que depositam nos ombros estreitos das crianças e adolescentes oriundos das comunidades de baixa renda, que frequentam as escolas públicas brasileiras, a razão para o mau desempenho escolar. Segundo eles, os ensinos fundamental e médio perderam a qualidade de outrora, a partir do momento em que as escolas públicas abriram suas portas para educar aquele segmento da população do qual, até o início da década de 60 do século passado, poucos tinham acesso à educação.

A escola pública, quer do ensino primário, quer do ginasial e colegial era, até então, excludente. Os alunos que a frequentavam pertenciam à classe média, média alta e rica. Vinham de um meio favorecido, com ambiência cultural, filhos de pais com boa escolaridade. Àquela época já existiam escolas particulares tradicionais, sobretudo do ensino ginasial e colegial, famosas pelo ensino oferecido. Entretanto, a matrícula na rede pública brasileira era muito maior do que na rede privada. Escolas públicas e particulares existentes igualavam-se no ensino de qualidade oferecido e no desempenho escolar dos alunos.

Minha visão é de que o fator que mais pesa no mau desempenho dos alunos da maioria das escolas públicas e de muitas escolas particulares não é a origem dos alunos. Outros fatores são responsáveis pela queda da qualidade dos ensinos fundamental e médio. Já os enumerei tantas vezes nos artigos que escrevi, nas palestras que fiz que não os vou repetir aqui.

Essa certeza acompanha-me há muitos anos. Quando me formei, em 1943, no Instituto de Educação, fui trabalhar em uma escola primária no Mendanha, em Campo Grande. Meus alunos vinham de comunidade de baixa renda. Em 1946 fui transferida para uma escola primária situada no Morro do Salgueiro, na Tijuca, onde trabalhei 15 anos, sendo quatro como subdiretora e diretora. A escola pertencia a um Distrito Educacional, da Secretaria de Educação e Cultura do então Distrito Federal, no qual as demais escolas que o integravam possuíam um alunado oriundo de famílias de bom e alto nível socioeconômico. Em nossa escola que, à época chamava-se Heitor Lira, os alunos vinham das casas e barracos daquela comunidade.

Pois bem, os melhores resultados nas turmas de alfabetização de todas as escolas daquele Distrito Educacional eram os obtidos pelos alunos da escola primária do Morro do Salgueiro, o que fez com que a escola passasse a ser campo de estágio das normalistas do excelente Instituto de Educação.

O grupo de professoras que lá trabalhavam, todas formadas pelo Instituto de Educação, encontraram a fórmula para aquele êxito. Sabiam ensinar, conheciam seus alunos e o meio em que viviam. Os portões da escola abriram-se para acolher as famílias dos alunos, o que as levou a participar, mesmo com limitações, da vida escolar de seus filhos. As professoras mudaram por meio de um trabalho integrado e eficiente, liderado pela direção da escola, o rumo da vida daqueles alunos. A palavra evasão não fazia parte da estória daquela escola, e reprovação foi outra palavra que caiu em desuso.

Já, naquela época, além do currículo que era comum para todas as escolas públicas, a administração da escola estabeleceu parceria com um Posto da Fundação Leão XIII, que foi construído no Morro do Salgueiro e que dispunha de oficinas para qualificação profissional. Para lá eram encaminhados os adolescentes que tinham como horizonte a educação profissional, e que o frequentavam no contraturno em que estudavam na escola primária do Salgueiro. Terminado o primário eram encaminhados para escolas técnicas públicas. Estava aberto o caminho para o ingresso no mercado de trabalho. Os alunos que visavam a continuidade de estudos, após o curso primário, eram aprovados no exame de admissão para o ginásio. Muitos deles ingressaram nas Faculdades.

Vivi naquela escola primária que, depois, chamou-se Bombeiro Geraldo Dias, no Morro do Salgueiro, a melhor e mais bela experiência de minha vida como professora.

Em 1965, como Secretária Estadual de Educação e Cultura da Guanabara, no governo Carlos Lacerda, e 10 anos depois como Secretária Municipal de Educação e Cultura da Cidade do Rio de Janeiro, na administração do Prefeito Marcos Tamoyo, quando a rede pública de ensino de 1º grau já abrira suas portas para crianças de todos os estratos sociais e econômicos, continuei a acompanhar o desempenho dos alunos e dos professores.

De 1975 a 1979, a Secretaria Municipal de Educação e Cultura procurou dar, aos 700 mil alunos de suas 800 escolas, ambiência cultural indispensável a uma eficiente aprendizagem; oportunidades de aprimoramento da prática docente e de gestão a seus 30 mil professores; boas condições de trabalho, melhoria salarial para o corpo docente e para os gestores. Não preciso dizer que conseguimos bons resultados.

Tudo isso que aqui relatei é preâmbulo para falar dos resultados da 10ª Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas.

Na semana passada, as portas do belo e majestoso Theatro Municipal do Rio abriram-se para receber os 501 estudantes de todo o país, que ali chegaram com seus familiares para receber as medalhas de ouro conquistadas na 10ª Olimpíada, promovida pelo Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada – IMPA, disputada por mais de 18 milhões de alunos.

Reproduzo aqui, o que disseram ao repórter que as entrevistou, quatro ganhadoras da medalha de ouro.

Hevelyn Nunes da Rocha, de 16 anos, que mora na cidade mineira de Santa Maria do Suaçuí, no Vale do Jequitinhonha disse que sua mãe saiu de casa quando ela tinha 8 anos. Foi criada pelo pai que trabalha como pedreiro. É aluna do 1º ano do Ensino Médio. Já havia conquistado, anteriormente, dois bronzes e uma prata. Não tem internet em casa, e tem acesso reduzido na escola em que estuda. Hevelyn vai à casa da prima, quando quer usar a rede. Disse que as dificuldades não a fazem desanimar. Que agora tem um sonho: classificar-se para a Olimpíada Internacional de Matemática.

As trigêmeas Fabíola, Fabiele e Fábia Loterio que têm 15 anos, são filhas de pequenos agricultores. Moram no Distrito de Rio do Norte, em Santa Leopoldina, no Espírito Santo, a 21km da escola em que, agora, estudam. Seu pai cursou até o 2º ano do ensino fundamental e sua mãe chegou até o 4º ano. Não têm internet em casa. Os pais, embora com baixa escolaridade sempre as estimularam para estudar. As meninas começaram a competir quando cursavam o 6º ano do ensino fundamental. Hoje, elas estudam no Instituto Federal do Espírito Santo, cursando Agropecuária. Vivem no campus da Instituição.

Os 501 campeões brasileiros que conquistaram a medalha de ouro foram recebidos, no Theatro Municipal do Rio, pelos Ministros Renato Janine Ribeiro e Aldo Rebelo, numa memorável tarde de julho de 2015.

Para Hevelyn, Fabíola, Fabiele e Fábia, e para muitos outros vitoriosos que lá estavam, a condição socioeconômica não foi obstáculo para, disputando com milhões de alunos, conquistarem a medalha de ouro.

Já havia escrito esse artigo quando, no domingo, ao ler a coluna de Elio Gaspari no O Globo, intitulada “As meninas de Santa Leopoldina” li algo que peço licença para aqui reproduzir: “Há algumas semanas, havia um pedágio na entrada da cidade de Santa Leopoldina, na região serrana do Espírito Santo. Jovens pediam dinheiro aos motoristas para ajudar a pagar a viagem aérea das trigêmeas Fábia, Fabiele e Fabíola Loterio, ao Rio. Elas iriam a uma cerimônia no Theatro Municipal para receber as medalhas que conquistaram na 10ª Olimpíada de Matemática das Escolas Públicas.”

Esse episódio recente, num momento em que muito se fala no baixo desempenho dos alunos dos Ensinos Fundamental e Médio, em que muitos continuam a atribuir isso à condição socioeconômica de grande contingente dos alunos que frequentam as escolas públicas brasileiras, é mais um grito de alerta para aqueles que estão propondo medidas, visando à melhoria da qualidade do ensino e da aprendizagem. Essas medidas deverão atender aos reais fatores que contribuem para o ensino de baixa qualidade e para o baixo desempenho escolar dos que estudam na rede pública brasileira.

*Educadora

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Autor: Revista Ensaio

A Revista "Ensaio", de nível internacional, constitui fonte de estudo e de pesquisa para todos os que se interessam pela área de avaliação e políticas públicas em educação. Publicação trimestral internacional, da FUNDAÇÃO CESGRANRIO, com tiragem de 1.500 exemplares, de distribuição gratuita, Ensaio congrega, em seus Conselhos Editorial e Consultivo, educadores internacionais de notório saber, mestres e doutores nas áreas por ela abordadas, para melhor atender à sua especificidade. Avaliada no qualis CAPES como sendo A1 na área de Educação, a Ensaio é uma revista que discute a realidade da educação brasileira, além disso, prima pela amplicação do debate pois abre espaço para que pesquisadores estrangeiros publiquem estudos sobre a realidade educacional de seus países. Trata-se de um veículo de divulgação de pesquisas, levantamentos, estudos, discussões e outros trabalhos críticos no campo da educação, concentrando-se nas questões da avaliação educacional e das políticas públicas em Educação, enfatizando as experiências e perspectivas brasileiras. Ensaio é pluralista do ponto de vista das ideias e das escolas de pensamento, interdisciplinar do ponto de vista das preocupações e metodologias empregadas por seus colaboradores. A revista promove intercâmbio com países da América Latina, México, Espanha, Portugal e a Comunidade de Língua Portuguesa, mantendo também a publicação de artigos em Espanhol e em Inglês. Ensaio tem sido contemplada com o apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da CAPES/MEC, cumprindo os requisitos necessários para o recebimento de auxílio editoração. Recebeu conceito internacional "A1" na avaliação dos Periódicos Científicos em Educação realizada, em 2013, pelo Quallis/CNPq e é indexada no SciELO - Scientific Eletronic Library Online e na CLASE - Citas Latinoamericanas em Ciencias Sociales y Humanidades (México, UNAM), BBE, DOAJ, Educ@, OEI, EDUBASE, LATINDEX, REDALYC, SIBE, SCOPUS. Buscando se modernizar e atender aos novos padrões das revistas acadêmicas de excelência, a partir de 2015 a revista Ensaio adotou o sistema de submissão de artigos totalmente online. Para acessar o sistema, os autores deverão se cadastrar no site da revista e escolher um login e senha. Com estes dados em mãos, poderão não só submeter os seus artigos, mas também acompanhar todo o processo de avaliação: http://revistas.cesgranrio.org.br/ A Ensaio também adotou o ahead of print. Esta modalidade agiliza a divulgação das pesquisas, aumentando o tempo de exposição dos artigos, beneficiando diretamente nossos leitores e autores. Os artigos publicados em AOP contam com DOI e ficam disponíveis tanto no nosso site, quanto no site do Scielo até serem destinados a um número específico. Informamos também que a Ensaio continua existindo nos dois formatos, o impresso e o online, e com a mesma periodicidade. A qualidade continua sendo importante para a Ensaio e as melhorias feitas visam contribuir para o objetivo maior do periódico: a ampliação do debate sobre a Educação em tempos difíceis.

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